Muitos artigos, livros e blogs de finanças pessoais elencam dicas e truques para economizar, sair das dívidas, atingir metas de independência financeira. Entretanto, apenas há uma verdade a ser defrontada e executada à risca, e é gastar menos do que se faz. Sim, pois a não ser que sejamos comtemplados por um prêmio de loteria ou uma doação, não ‘ganhamos’ dinheiro, mas ‘fazemos dinheiro’. We make money.

Esse deveria ser o nosso primeiro pensamento em relação ao que produzimos. Trocamos tempo de nossa vida, sob o nome de horas trabalhadas, para produzir e gerar riqueza (em forma de bens ou serviços). Se aproveitamos ou não, já é uma questão pessoal, educacional e cultural. Ao ter em mente que nada cai do céu e que ‘não existe almoço grátis’, podemos desacelerar o processo de alienação e gradualmente tomar as rédeas de nossa vida financeira (e laborativa, por que não dizer?). Afinal, dinheiro se recupera, mas o tempo...ah! O tempo... essa dádiva não tem preço. Tem valor. O verdadeiro valor que não aceita desaforo. Neste sentido, desperdiçar dinheiro, é desperdiçar, em última instância, também uma possibilidade, uma escolha de vida.

A segunda crença que merece especial atenção é a importância que damos ao conhecimento, seja ele acadêmico, técnico ou de outra ordem. Não me refiro aqui a diplomas e certificados, mas ao conhecimento de fato e suas aplicabilidades e potenciais de desenvolvimento. Valor intangível, que o mercado de recursos humanos busca tornar tangível, mensurável e encaixável em um cargo, ao qual se pode balizar
por requisitos desejáveis e tabelas remuneratórias. Neste viés, podemos concluir que o investimento em formação também gera valor. Não é à toa que estudos mostram que quanto mais tempo de formação se tem, maiores são as chances de “retorno do investimento”. Digo ‘chances’, porque como tudo na vida, não há garantias matemáticas, e o que podemos fazer é buscar o investimento (formação) que tenha nosso perfil e monitorá-lo e ajustá-lo de acordo com a necessidade e conveniência dos demais atores da dinâmica social (como se faz com sua carteira de investimentos). Pode até ser que tenha quem defenda o contrário. Eu respeito, apesar de, honestamente, achar que se trata de algum recalque.


De posse desses dois pensamentos devidamente inculcados, podemos passar às receitas prescritas para fazer o fermento agir. Não tenho a pretensão de esgotar o assunto, e nem é esta a questão aqui. Mesmo porque, o toque especial de cada receita é dado por quem a coloca em prática.

Ter clareza e conhecimento de suas receitas e despesas é o mínimo que se espera para quem pretende galgar sucesso nesta busca por certo conforto financeiro. Não é preciso ser nenhum gênio para concluir que o saldo desta equação deve ser positivo (Receitas > Despesas). E sejamos sinceros, falar é muito mais fácil do que fazer dar certo essa matemática... não sem razão, muitos a tem pelo termo ‘problema’. E aqui não cabe uma solução, mas um conjunto de soluções.

E o que são as ‘receitas’? Receita é tudo o que se produzem forma de trabalho (ou rendas). É o conjunto de sua remuneração. É uma parte da sua vida e de seus conhecimentos que chegam à sua conta bancária após a venda do seu tempo, perícia, paciência e dedicação para uma finalidade específica. Já as ‘despesas’ são as obrigações que geram desembolso, sejam elas impostas pelo governo, pela sociedade ou por você mesmo. E como não temos o domínio das variáveis ‘governo’ e ‘sociedade”, resta-nos adequar a equação na variável ‘eu’. Essa tinhosa equação pode ser traduzida em forma de um orçamento bem elaborado, que facilitará em grande medida, o direcionamento para tomada de decisões.

Não posso falar pelos outros, então darei, eu mesma, minha cara a tapa. Para começo de conversa, em minha juventude nunca me atinei de verdade para essas questões. Sou formada em Administração, e ainda assim, à época nefelibática de minha graduação, apesar de ser uma acadêmica aplicada, a relação trabalho x riqueza x futuro não pairava de forma tão centrada como agora. Talvez esteja ficando madura, talvez esteja ficando velha mesmo. Fato é que só quando comecei a sentir dores no bolso – coisas da idade – despertei e tenho desertado para a questão financeira como um excelente meio, e não um fim em si mesma. Meu tempo de devaneios infantis com o prêmio da loteria (na qual nunca apostei) e correlatos passou, e desperta do sono da
ignorância bovina e da preguiça estrutural, próprias do repertório canhoto, tenho investido meus mais preciosos recursos (tempo e conhecimento) a favor das minhas reais motivações (e se você não sabe quais são as suas, procure saber sendo honesto consigo mesmo). Alguns investimentos são arrojados – e neles se encaixam a qualidade de vida, a relação familiar e a saúde como bens maiores; e outros, especialmente os relacionados a dinheiro, são bem mais conservadores.

Dito isso, vou elencar o que funcionou, de fato, para mim e que, creio eu, deve funcionar para muitas pessoas. Mas como eu já havia dito, a receita da massa não é ‘fechada’ em si, mas traz consigo uma infinita gama de possibilidades que dependem da destreza de quem a prepara. E vou logo deixando claro que não me agradam as repetições ecoantes de autoajuda financeira. Longe disso. Ainda mais, por que os meus ingredientes podem não estar na sua dispensa (ou vice-versa). Daí, digo e repito (inclusive para mim mesma): “Se vira! Cada um com suas limitações e seus talentos. ”

Sendo uma balzaquiana solteira e sem passarinho para dar água, vivo na casa dos meus pais. Auto lá para quem torce o nariz e aponta o dedo condenando a minha atual escolha como se me aproveitasse da situação – há um ponto grande de interseção no conjunto de despesas familiares cujos elementos saem do meu orçamento. O nome disso é justiça. Se moro na casa, pago as contas também. “Sentou, sorriu? A conta dividiu” (Amo esse ditado). Afinal de contas, quem nos enche de direitos é a Constituição Federal, e não a realidade prática da vida.

Um dos passos primordiais em meu desenvolvimento financeiro se baseia em seguir os exemplos práticos do meu pai que, apesar de ter uma cosmovisão mais pessimista, sempre primou pela razão custo-benefício e decisões conscientes de consumo, sabendo sempre que os impulsos chegam a diferenciar necessidade de desejos. Não é fácil, e a duras penas venho aprendendo que não posso ter tudo ao mesmo tempo agora. Afinal, não é essa a pressão da sociedade? O termômetro do sucesso equivale à capacidade de consumo. E está sendo assim, aos poucos venho trabalhando a mentalidade para manter os meus valores e gerar outros tantos.

Nesta empreitada, tenho reaprendido muitas coisas que já estão ao meu alcance e sem maiores dramas. Torna-se mais visível a importância e os efeitos do planejamento no (e para o) cotidiano, a saber:

- Sentir o sabor da comidinha feita em casa por mim mesma, congelada semanalmente, e requentada no micro-ondas do trabalho.

- Ter mais autoestima e contato comigo mesma, sendo minha própria consultora de beleza para questões razoavelmente solucionáveis, como estética facial, manicure, hidratação, escova, penteados, maquiagem.

- Compreender que e-book e livro de sebo trazem o mesmo conhecimento do que aquele que vem embaladinho no plástico da livraria do shopping.

- Descobrir que meu smartphone pode me economizar um baita tempo e uma bela graninha quando bem utilizado (serviços, seguros, saúde, aulas).

- Fazer um verdadeiro inventário, uma lista e um lanche antes de ir ao supermercado, me certificando de diminuir significativamente as chances do impulso de comprar papel higiênico preto ou uma guloseima calórica fora do cardápio.

- Entender que há coisas previsíveis cuja periodicidade e durabilidade valem considerar uma compra em atacado. Afinal, tomo banho diariamentee a TPM me atormenta todos os meses (e por aí vai a lógica num sem-fim de itens).

- Recordar e reviver minha infância raiz, levando roupas à costureira para ajustes mais elaborados, deixando os botões, cerzidos e alinhavos por minha conta e risco.

- Descobrir o mundo mágico que é um armário desentulhado e arrumado, e as possibilidades quase infinitas com as peças que realmente uso.

- Desapegar, seja em bazares, brechós, sebos ou doações, de bons itens como sapatos, roupas, acessórios, livros que já cumpriram sua função em minha vida, indo servir a outras pessoas que deles precisam.

- Trocar happy hours e saídas caras e muitas vezes desnecessárias, por um lanche no aconchego e na segurança de casa e à mesa com meus pais, um passeio na praça com minha cadelinha, uma leitura edificante, a prática da fé e da oração, ou mesmo uma revitalizante e merecida soneca.

(E por aí vai...)

E nesses caminhos de reaprendizados, me deparei com novas formas mais otimizadas de fazer as mesmas coisas, porém com mais economicidade e praticidade. Um exemplo prático do que me refiro é o corriqueiro fato de comer (e, no meu caso, fazer dieta também). Meu bolso deu sinais de gratidão quando meu plano de “pensar o cardápio”
começou a ser executado. Afinal, preciso diariamente de uma proteína, uns cubos de carboidrato de baixo índice glicêmico, salada, água e frutas. O que me leva a adquirir, preparar e congelar uns quilinhos de peito de frango, batata doce/ abóbora/ feijão; tomate/ alface e limão; e as frutas da estação (deu até rima). Simples assim, sem mirabolância. Menos que isso é ser sovina, e mais que isso é ser gulosa.

Automóvel para mim não é condição necessária para ir e vir. Mas é quase isso! Algo que não precisaria se residisse em um país que devolve aos seus cidadãos os impostos em forma de serviços públicos razoáveis, como o transporte público. Já que não é assim que funciona, eu calculo meus itinerários, o valor do estacionamento (mais essa pegadinha ainda! A falta de planejamento urbano beira a comédia), a proporção km/L, o posto confiável mais barato e a razão etanol/gasolina. Feito isso, pondero ou não se lavo o carro a cada dois ou três meses. A isso, penso nas manutenções, nos imprevistos (parte deles ocorre com panelas no asfalto), no seguro, pedágio, IPVA e custo de oportunidade, somando tudo e dividindo por doze (meses), tenho o preço que pago mês a mês pela ineficiência inquestionável dos ônibus coletivos e da regulação/fiscalização dos responsáveis.

Neste viés, outra coisa pelo que pago duas vezes é pelo acesso à saúde. Todo santo mês descontam impostos de mim e de todo cidadão brasileiro para essa finalidade (também). Que me desculpe quem pense ao contrário, mas não há comparação da estrutura da rede pública com a rede conveniada/particular. Tive, nos últimos seis meses, três intercorrências de saúde, sendo duas delas cirurgias de urgência. Só me resta relatar uma coisa: gratidão pelos acessos que tenho e por poder, ao menos dando meus pulos financeiros, adquirir medicação adequada (outro item caríssimo). De outra forma, só mesmo entrando numa fila interminável e morrendo à espera.

Olhando de fora, mais parece uma vida espartana. Olhando de dentro, também. De fato, é! E é aí que entram mais uns punhados de questionamentos: espartana para quem? Em que parâmetros? Para o homem hiperconsumista da sociedade contemporânea ou para o naturalíssimo homem paleolítico. Perguntas como - “preciso
mesmo da ceroula desta marca ou apenas desejo que seja dessa marca”? - necessitam ser feitas, a fim de evitar que paguemos “preços” que, de fato, não nos agregam “valores”. Ah! E também aprender a não dar confiança para os outros, especialmente quem não sabe o valor do seu trabalho e para quem não paga suas contas.

Mas é só isso? Não, definitivamente não. Depois de deixar muito de minha vida escoar pelo ralo (é um choque realizar que somos os únicos responsáveis pelo trabalho e tempo jogados fora na forma de dinheiro), comecei a pôr em prática a regra do conhecimento, do trabalho e do tempo como valores. Como assim? Vou explicar de forma bem simples e direta: é deixar o tempo trabalhar a seu favor, tal qual tonéis de vinhos “reserva especial’. Sou aluna em constante aprendizado na construção de minha própria reserva especial. E aqui entra o fator “matemática dos juros” para dar um sabor extra ao tempero dessa reserva em construção (e sendo honesta sem ser cara de pau, eu prefiro receber juros a ter que pagar por eles). Claro que vez por outra, parte da safra evapora e, se realmente planejado, apenas dá mais sabor e consistência ao produto final.

Digamos que minha reserva ainda é recente, e começou a entrar em forma bruta nos tonéis de aprimoramento a pouco tempo. Esforço-me muito (muito mesmo, é um esforço hercúleo) para direcionar uma porcentagem "X" de minha produção para minha “adega premium”. Essa que o tempo deverá ajudar a moldar com louvor. Para evitar que minhas ‘degustações’ me levem a ficar ébria e fazer besteiras impensadas com meus próprios esforços, deixo meus barris a meia distância – nem perto para ceder às tentações e nem longe para perder o gosto, o controle e o direcionamento.

Para que minhas metas prosperem, sou honesta comigo mesma e me rebolo para melhorar meus números. Não é fácil. Mas é necessário. Há meses que consigo mais, há muitos outros de não. Só que desistir não é uma opção para mim, mesmo porque uma de minhas metas é ter uma velhice confortável sem dar trabalho para ninguém – nem para o Estado, nem para a Sociedade, nem para minha família. Quero muito envelhecer saudável e viver longos anos dignamente. A outra opção, se antes dos noventa, trato como ‘eventualidade’, e confesso que nem de perto figura em meus planos.

E por falar em planos, metas, objetivos, é melhor que se tenha um. Este é meu posicionamento como pessoa de fé. Não vivemos em vão, e não podemos nos dar ao luxo de passar por essa vida sem ser o melhor que podemos ser. É por isso que tenho metas acadêmicas, profissionais, familiares, religiosas, financeiras. Metas desafiadoras, mas não impossíveis.

Desnecessário dizer que sozinha não alcançarei o resultado do meu planejamento, pois sem ter com quem compartilha-lo, terei jogado fora todos os meus valores mais preciosos e não haverá preço que os pague.